Entre fraudes na cota de gênero e mudanças na legislação eleitoral, partidos enfrentam o desafio de eleger mais mulheres em 2026
As mulheres são maioria entre os eleitores cearenses, mas essa vantagem numérica não se traduz em representação política. Nas eleições de 2022, elas representavam cerca de 53% do eleitorado do estado — ainda assim, aproximadamente 81% dos votos para deputado estadual e federal foram para candidatos homens.
O descompasso mostra que o problema não está apenas no comportamento do eleitor na hora de votar. Segundo especialistas ouvidos pelo PontoPoder, do Diário do Nordeste, a desigualdade começa a ser desenhada antes mesmo da campanha, nas decisões internas dos partidos sobre quem recebe estrutura, tempo de TV e recursos financeiros para disputar a eleição.
Uma disputa desigual desde a largada
A cientista política Monalisa Soares, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem), avalia que os partidos seguem priorizando candidaturas masculinas na distribuição de recursos, tempo de propaganda e visibilidade — o que deixa muitas candidatas em desvantagem antes mesmo de a campanha começar.
O estrategista político Adriano Canutto reforça essa leitura. Para ele, “a persistência de 81% dos votos direcionados a homens não é um problema de preferência de voto, mas de oferta qualificada e infraestrutura de campanha”. Segundo o especialista, historicamente os partidos concentraram recursos e estrutura de campanha em um grupo restrito de candidaturas, enquanto muitas mulheres foram lançadas apenas para preencher a cota, sem orçamento ou tempo de TV suficientes para competir em igualdade de condições.
É nesse contexto que surgem as chamadas “candidaturas laranja” — registros feitos apenas para cumprir a exigência legal de gênero, sem que a candidata receba apoio real para disputar o pleito.
Legislação avançou, mas cenário ainda não mudou
Desde 2009, a Lei das Eleições exige que os partidos reservem no mínimo 30% das candidaturas proporcionais para cada gênero. A regra, no entanto, vale para o registro das candidaturas, não para o número de mulheres efetivamente eleitas.
Decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também determinaram que recursos do Fundo Partidário, do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e o tempo de propaganda em rádio e TV sejam distribuídos proporcionalmente ao número de candidaturas femininas. Ainda assim, para Monalisa Soares, muitas legendas passaram a cumprir essas exigências apenas formalmente, sem mudar a prática — muitas vezes liberando recursos só nos últimos dias de campanha, quando já não há tempo de estruturar uma candidatura competitiva.
Anne Cabral, vice-presidente da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), pondera que garantir a presença de mulheres nas chapas não é o mesmo que garantir condições reais de disputa. Ela defende que o debate avance para novos mecanismos, como a reserva de cadeiras nos parlamentos — modelo que fixaria um percentual mínimo de mulheres eleitas, e não apenas de candidatas registradas, à semelhança do que já existe na Argentina.
O que precisa mudar até 2026
Para os especialistas, a virada depende principalmente de decisões internas dos partidos: investir na formação de novas lideranças femininas, fortalecer redes de apoio entre candidatas e destinar de fato os recursos que a Lei dos Partidos Políticos já prevê — pelo menos 5% do Fundo Partidário para a promoção da participação política das mulheres.
Monalisa Soares também chama atenção para a baixa presença de mulheres nas direções partidárias, o que mantém as decisões sobre alianças e distribuição de recursos concentradas nas mãos de homens. Anne Cabral acrescenta que, como o sistema eleitoral brasileiro não permite candidaturas avulsas, a ampliação da participação feminina na política passa, necessariamente, por mais mulheres ocupando espaços de comando dentro dos próprios partidos.
Já Adriano Canutto pondera que as redes sociais podem ajudar a reduzir parte da desigualdade histórica de estrutura entre candidatos e candidatas, ao ampliar o alcance de campanhas com menos investimento — mas destaca que elas não substituem o trabalho de base, os comitês e o apoio institucional dos partidos.
Apesar dos avanços legais dos últimos anos, a avaliação das especialistas é de que ainda não há sinais claros de mudança para o pleito de 2026, enquanto os partidos mantiverem a lógica atual de funcionamento.
Fonte: Diário do Nordeste
Foto: Kayo Magalhães